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::Terça-feira, Janeiro 25, 2011 ::

- desassossego -

a pergunta era simples e a resposta, aceitável. mas jesuina preferia mentir.

seu olhar agudo e nariz azedo diziam tanto mal de si que ela sentia a necessidade de inventar uma outra pessoa, como se na mentira pudesse apagar seus traços, seu corpo; e sem perceber que era justamente assim que se concebeu seu ser - astuto, azedo e perigoso.


01:18 [+]
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::Quarta-feira, Junho 30, 2010 ::
- o vale -

k. olhava para o vale como se fosse saltar. mirava como se devesse a ele toda a vida.

mas lutava. queria retornar aos braços de sua casa, residir no carinho de sua constância, respirar tranquilo e feliz pelos planos dia-a-dia desenhados.

lutava contra o cheiro perfumado que lhe invadia os sentidos, contra os densos cabelos do mato que lhe ofereciam a imagem de uma cama de seda onde poderia desmaiar sossegado.

eram as curvas dos montes, o cheiro das flores, o aveludado segredo de suas entranhas que ameaçavam a paz de k.

talvez fosse a vida, talvez fosse o fim.


00:15 [+]
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::Sábado, Março 13, 2010 ::
- nem por você, nem por ninguém -

é só um sopro.

fuuuu...


para ver se a poeira se dissipa.


21:39 [+]
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::Quarta-feira, Setembro 23, 2009 ::
- curiosidade -

a curiosidade é um mal que perturba a mente de qualquer escritor barato que se atreva a viver, quando em vez, de contar estórias, causos e fofocas sobre a vida alheia de personagens que sequer existem. uma pessoa, um pé-de-vassoura, um bicho.

pensei na mulher do outro lado da cama, do outro lado do mundo. olhos verdes, pele de lã, traços coloridos completando o rosto. podia ser uma moça embelezando-se antes de dormir - a camisola fina, o corpo quente, as mãos firmes buscando preenchê-la de paz. ou podia ser nada mais que uma boneca desgastada na prateleira do quarto - o algodão rasgado, o pano borrado.

porém, mais importante do que o quadro que se pintava, era a vontade de entendê-lo, a curiosidade. depois de pronto, a moça ou a boneca seriam entregues ao passado, vaga lembrança que só serve de elemento para resolver outras questões que pudessem surgir.


01:36 [+]
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::Domingo, Agosto 09, 2009 ::
- o ambiente -

uma mesa de escritório e, em volta, nada do que está fora de mim agrada. olhos tensos, mentiras. o ponto batendo firme ao pé da escada.

nada do que está fora me agrada. e ainda assim, me domina. quero ter, quero ver, quero ser. e nada daquilo eu quero.


18:56 [+]
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::Domingo, Julho 05, 2009 ::
- travis -

When the spotlight fade away
Ma vie
C'est la vie
When the blue skies turns to grey
Ma vie
Tout ma vie


lembranças. uma imagem, um cheiro, um som. dias infelizes mais felizes.

I want to see what people saw
I want to feel like I felt before
I like to see the kingdom come
I want to feel forever young
I want to sing
To sing my song
I want to live in a world where I belong
I want to live
I will survive

And I believe that it won't be very long
If we turn, turn, turn, turn, turn
Then we might learn



12:37 [+]
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::Segunda-feira, Junho 29, 2009 ::
- branco -

a noite avança
e sobre ela o branco das nuvens que adormecem no morro
silêncio
um pássaro se arrisca a cortar o tempo
desce o morro, raspa o brejo, escala o vento
grita
recebe em suas penas os primeiros raios do dia

06:30 [+]
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::Segunda-feira, Junho 15, 2009 ::
- padrão rj? -

um mês e meio. tempo suficiente para ficar satisfeito já com as piadas contadas, dia-a-dia, nesta cidade que, com tanta arrogância, cospe nas imperfeições que suas co-irmãs cometem.

nesta noite, chegou a internet que havia contratado desde o primeiro dia e que, após esperar duas semanas, sem notícias, tive que procurar para saber que não me atenderia, 'por excesso de clientes no endereço'.

despachei, não sem antes fazer desfilar o riso amarelo de cada dia.


20:20 [+]
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::Segunda-feira, Maio 18, 2009 ::
- banana -

eram trinta e três degraus: duas linhas de água escura escorriam pelos cantos; no topo, a paulista; nas minhas costas, o trabalho puxava a mochila até estalar as costelas.

o vento frio anunciava a verdade como se fosse um beliscão indelicado no meio do sonho: estava em são paulo. o sotaque forçava os ouvidos, o incômodo trazia a saudade, a multidão me enchia de vazio. as regras, porém, eram as mesmas de antes. era tudo tão simples e claro que parecia difícil compreendê-lo - como se fosse uma palavra fácil que não conseguia soletrar: banana.

onde fica o dentista? qual o melhor dia para comer uma feijoada? como se faz para ir ao encontro de deus? quem irá me carregar no final da madrugada? por que não lembro da infância? quando poderei sorrir nas ruas?

senti falta de casa pela primeira vez em dez anos, como se tivesse demorado todo o tempo para perceber as mudanças. ao atingir o topo da escada, com o mundo girando a toda velocidade, não era mais o garoto de antes. o vestibular acabara; o medo era real.

ao atingir o topo, o barulho do trânsito calava os pensamentos. a avenida era plana e devia seguir em frente, passo a passo, cara a tapa. tão simples como sorrir diante do espelho, vestir casaco e soletrar: b-a-n-a-n-a...


22:22 [+]
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::Segunda-feira, Março 09, 2009 ::
- renda-se -

um dia, k. abaixou a cabeça diante do seu pai e chorou o fardo de ser seu filho...

17:27 [+]
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::Terça-feira, Novembro 11, 2008 ::
- dois bonecos -

os olhos de k. escorriam pelo corpo de ana como se fosse uma gota se arrastando pela janela do trem no início da arrancada para uma longa viagem. era a despedida.

k. não queria ficar, mas ana poderia ter sido perfeita.

não acenaram, como nem deram as mãos durante o caminho até o adeus. as mãos estavam pálidas, secas, frias.

logo deixaram de existir. um moço o embrulhou em sua caixa e ana continuou encostada à vitrine.

talvez nunca se conheceram.


Caronte, a escuridão 22:57 [+]
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::Segunda-feira, Outubro 27, 2008 ::
- estados incertos -

apaguei o zunido do metrô ao aumentar o volume do mp3. como trocar todos os amigos de uma vez? cada pessoa diferente dançava um ritmo, batucava uma marcação. meu samba se adaptava.

chegou rápido à estação. dali em diante, só minha música tocava. o zunido da solidão cortava por cima de tudo.


Caronte, a escuridão 22:15 [+]
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::Terça-feira, Setembro 23, 2008 ::
- quase trinta -

banco de praça. copacabana. cerca de treze velhinos jogando damas, cartas e conversa fora, enquanto k. continuava a pensar alto.

sozinho. pensava alto em silêncio.


Caronte, a escuridão 09:51 [+]
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::Terça-feira, Agosto 19, 2008 ::
- transparência -

ana usava um vestido colorido perfeito para vender mate na praia. era domingo. chinelinho de dedo e cabelos agitados como se fossem mar.

as cores do vestido a deixavam aparecer, traçavam detalhes do seu corpo que a pele transparente e tímida duvidava ainda em querer desenhar. gritava os preços da bebida como se cantasse uma linda poesia. ou era caymmi.

não recebia cantadas, nem recebia pensão. trabalhava domingo a domingo, como se todo dia fosse o mesmo romance recheado de desassossego e solidão. passava pela areia como um cândido grão a deslizar na rotina do vento.

e era linda mesmo assim.


Caronte, a escuridão 13:18 [+]
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- correspondência -

mal dormia e o sangue já começava a pingar nos seus sonhos. k. sorria amarrado nas tripas do cafajeste que acabara de esquartejar, com cara de dever cumprido e salvador da humanidade. deus estava dentro dele.

suava a noite inteira enquanto sua mente trabalhava para construir as mais cruéis vinganças. ao fim, sempre matava o inimigo com descarga de ódio a esticar seus músculos e o abandonava à própria sorte, despedaçado - porque o desprezo, assim, era a maior das traições.


Caronte, a escuridão 12:51 [+]
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::Terça-feira, Agosto 12, 2008 ::
- simplicidade -

k. se fechou em um quarto três por três e acreditou que dali conseguiria entender o mundo. ouvia os pássaros e suava com o ventilador velho a soprar um vento quente em sua camisa molhada.

pedia comida pela internet, gastando a poupança que acumulara enquanto ainda fazia planos. banhava-se a cada três dias. a barba já estava a esconder o rosto que um dia admirou e, naqueles instantes, apenas encarava no espelho para sentir ódio de si mesmo.

k. não entendia o mundo, mas, trancado, achava que iria entender. não atendia o telefone, nem respondia e-mails para não se deixar influenciar pela opinião dos outros - 'não serei mais nunca uma maria-vai-com-as-outras'. o canto do passarinho já o incomodava... mesma música todas as tardes.

o sol brilhava no fim do inverno e a poeira escurecia sua vista - pesava sua cabeça o pus acumulado pela alergia. 'a vida é tão simples que não quero mais vivê-la', k. escreveu com pouca convicção na parede do quarto antes de dormir. sonhava pesadelos.

o barulho das ruas se repetia naqueles três meses sem sair de casa, sem que nenhuma solução o animasse. o mundo simplesmente continuava enquanto a vida de k. desistia de ser e se acabava.


Caronte, a escuridão 14:58 [+]
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::Sábado, Agosto 02, 2008 ::
- c.a. -

era apenas uma célula que decidiu se multiplicar, como um ditador que buscasse impor seus pensamentos, suas convicções, para dominar o mundo - e logo formou uma bolha.

em poucos instantes, tínhamos uma onda a balançar o corpo e desesperar todos aqueles que nele se sustentavam.

Caronte, a escuridão 00:35 [+]
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::Segunda-feira, Julho 28, 2008 ::
- espiral -

a vida é uma só. ler posteriormente o que se escreveu sobre experiências ou construções mentais é voltar ao passado para reescrevê-lo consciente dos resultados que serão produzidos, com a única correção de que, não se podendo consertar o passado, planeja-se o futuro para realizar os acertos que a vivência apresentou.

escrever este blog sempre foi, para mim, a melhor forma de arquivar personagens, cenários, passagens em um almoxarifado vivo. e a experiência se mostrou correta tantas vezes. valeria a pena tê-lo construído desde o primeiro comentário que recebi por e-mail, de um português barbudo, dono de um papagaio e motorista de bugre em natal.

entretanto, apenas hoje percebi com clareza a função filosófica deste humilde canto virtual. li o primeiro texto que escrevi em três de fevereiro de dois mil e três e o achei atual, como se àquele dia minha vida retornasse, para descobrir, no ensinamento, novos conhecimentos, novas compreensões. digo mais a mim mesmo (que me conheço como ninguém), toda a primeira página dos textos mais antigos está a me revelar segredos sobre o futuro.

lendo mais um pouco, sinto-me feliz por ter sido um cara bacana naquela época. sinto-me feliz por encontrar em mim mesmo o amigo íntimo que preciso para revelar os detalhes da angústia impronunciável cravada no peito. eu estava precisando de mim mesmo, porque vivi, longos tempos, na mente de outras pessoas que queria conquistar.


Caronte, a escuridão 04:12 [+]
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- blockbuster -

a atriz italiana de filmes complexos assistia a tv no canto da sala, comendo pipoca e ouvindo as explosões: adorava super-produções-holliwoodianas-de-alto-orçamento.

não confundia a personagem especial que interpretava com a pessoa comum que carregava na vida real.


Caronte, a escuridão 02:01 [+]
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lado a

'caiu na roda, ou acorda ou vai rodar' - céu/beto villares

madalena era uma mulher comum e acordou com ressaca nos olhos. os beiços sujos do moço que a encurralou, na manhã anterior, entre a barraca de côco e a calçada alta da praia do arpoador ainda estavam a tremer, com a confissão se segurando para não ser dita.

ao lado, via k. mas não conseguia entendê-lo perdido profundamente no sono, 'como podia estar tranquilo depois do que aconteceu?'. madalena jamais assumiria a culpa sozinha e, agora, a única dúvida era se deveria acordá-lo para dizer ou esperar que ele procurasse a dureza do seu dia naturalmente.

como pensou alto, o rapaz despertou para lhe dizer bom dia, como se, realmente, não quisesse perceber o problema - mesmo que ela contasse com todas as letras; 'bom dia, meu bem', disse ele tentando mira-la nos olhos. madalena contou tudo em um cuspe, sem contestar se era bom, se faria bem - e chorou para preencher a vista de água e esfregar a vergonha que lhe restara.

por dentro, estava feliz por resolver a angústia que as palavras, presas em sua mente, provocavam. e nada mais importava que fazer prevalecer, depois disso, suas demais conclusões sobre o tema. madalena ensinaria toda a filosofia necessária para cortar o bolo de culpa que estava a servir de café-da-manhã - k. deveria agradecer por estar sendo servido na cama, como um rei.

lado b

'cada um que passa em nossa vida passa sozinho, pois cada pessoa é única, e nenhuma substitui outra. cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós. leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. há os que levam muito; mas não há os que não levam nada. há os que deixam muito; mas não há os que não deixam nada. esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente que nada é ao acaso' - antoine de saint-exupery

k. dormia e, naquela noite, sonhava com a vida. ana estava encostada numa grade e eles se olharam - era a descoberta do amor. k. dormia e sonhava com a vida que gostaria de ter; roncava e sorria de boca aberta para engolir moscas. e ana largou a grade que prendiam-nos na solidão para ir com seu homem.

zzz

não era a primeira vez que k. dormia, nem a única ou última em que sonhava. a cada noite aprendia algo com os sonhos que imaginava reais - nunca achava ana, mas acordava com joana, mariana, liliana: falsas anas que o ensinavam a encontrá-la.

nenhuma era fiel aos seus pedidos, pois, para realizá-los, k. exigia que as moças abdicassem dos prazeres mundanos, que enfrentassem o deleite dos sentidos. tinha uma fixação por fidelidade e aos princípios maiores de qualquer relação - e andava só, sem amigos ou mulheres para sempre: o ser humano comum nasceu para contestar as leis, inclusive as que jamais deveriam ser rompidas.

k. não sabia se era muito rígido com as pessoas, se era poético demais ao avaliar seres incompletos, se era burro ou o quê. mas tinha certeza que, se era para sonhar, ia sonhar o melhor e, se era para viver, que ia continuar a buscar o sonho mais perfeito que pudesse imaginar. as dificuldades de ana que ele enfrentava ou as que para ela criava, eram oportunidades de se amarem no dia seguinte - bastava que os princípios fossem seguidos com fidelidade.

o sono acabou e logo k. descobriu que era o fim de outro sonho. ana estava em pé ao seu lado, sem grade nenhuma para impedi-la de agredi-lo; se apresentou enquanto ele esfregava a mão para mirar fixamente os olhos de ressaca, sem entender por que não via os puros-amorosos-olhos-de-ana: 'meu nome é madalena', disse lhe dando uma fatia escura de bolo fedorento.


Caronte, a escuridão 01:37 [+]
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